“He pasado tres días extraños: el mar, la playa, los caminos me fueron trayendo recuerdos de otros tiempos. No sólo imágenes: también voces, gritos y largos silencios de otros días. Es curioso, pero vivir consiste en construir futuros recuerdos; ahora mismo, aquí frente al mar, sé que estoy preparando recuerdos minuciosos, que alguna vez me traerán la melancolia y la desesperanza.
El mar está ahí, permanente y rabioso. Mi llanto de entonces, inútil; también inútiles mis esperas en la playa solitaria, mirando tenazmente al mar. ¿Has adivinado y pintado este recuerdo mío o has pintado el recuerdo de muchos seres como vos y yo?
Pero ahora tu figura se interpone: estás entre el mar y yo. Mis ojos encuentran tus ojos. Estás quieto y un poco desconsolado, me mirás como pidiendo ayuda.”
Ernesto Sábato
… sair voando pelo quarto, pela sala, pela casa
chorando a dor de um amor distante, sorrindo por ser capaz de sentir tão intensamente…
Só estando vivo pra chorar sentimento… Eu me arrepio toda. Fico triste de alegria, até alegre de tristeza… Melancolia que estapeia a cara e mostra que a gente nao tem controle da emoção. Por isso a boca treme quando a gente perde a força. Emoção é alma, é além carne…
Paixão é pedra no tropeço, copo cheio d’agua. Transborda ansiedade. Vez em quando satisfaz, enche o corpo de saudade. E esvazia no primeiro gole. No segundo é sede insaciável. Dança no escuro o passo certo. Incerta é a pausa, que maltrata na falta de pele, de suor desejado. Mancha a boca como vinho, embriaga a alma de sabor, de cor. Marca a língua com a cor do sangue. É carne, é pulso, é vida. Enche o peito de ar, sufoca na distância.
Paixão é cama cheia que compartilha sobras de ilusões alimentadas. Soma de vontades alheias ao minuto que segue. Sobrevive no segundo, no agora. Amanhã não existe, morre no desespero do encontro vindouro.
Meu travesseiro me guarda. Minha paixão arrancada do peito rasga meu corpo todo. Choro meu desejo escondido na fronha. Tudo ali, codificado em lágrimas secas. As mãos latejam uma saudade quase insuportável. Respiro as mãos cruzadas, a nuca nua na minha boca. Saboreio a lembrança da pele com tal intensidade que meu corpo todo dói.
Quero aqueles dedos descobrindo meus segredos bobos, minha auto-proteção fajuta. Quero aquelas mãos arrancando minha pele, meu medo de entrega…
“Hay mendigos de todos los tamaños y colores, enteros y mutilados, sinceros y simulados: algunos en la desesperación total, caminando a la orilla de la locura, y otros luciendo caras retorcidas y manos tembleques por obra de mucho ensayo, profesionales admirables, verdaderos artistas del buen pedir. En la plena dictadura militar, el mejor de los mendigos chilenos era uno que me conmovía diciendo: soy civil.” – Eduardo Galeano
A arte de saber pedir. Uma realidade compartilhada e reafirmada pelos países da América Latina. No metrô portenho, uma mulher trocava a voz por moedas. Cantava sem brilho um tango, desacreditava aquele talento vitimado, no entanto, enchia o diafragma e impulsionava a voz com intensidade. Acreditava na recompensa merecida que vinha com moedas e alguns sorrisos de quem compartilhava aquele mesmo espaço. A cantora do metrô sorria, agradecia com o olhar o poder de comunicar a própria realidade.
Em um vagão mais a frente, um homem deslizava os dedos por uma guitarra ligada a um amplificador. Olhava para o instrumento como que pedindo uma sugestão musical. Em uma piscadela, segurava o braço da guitarra e apreciava sem distração a conversa entre os dedos e as cordas. Ao meu lado, uma senhora sorria para o homem, que retribuia com um cumprimento de cabeça. Sem tirar os olhos do instrumento, abria espaço para as pessoas que saiam e para as outras que entravam no vagão. Continuava a pedir com aquela canção solada.
A efemeridade encontra o acaso em um rasgo de vida. Corta o abraço ao meio, ainda que o calor da presença permaneça enquanto lembrança.
O olhar se despede em um suspiro. A pele arde antecipando a saudade, faz o corpo chorar a ausência prematura.
Dias sem fim que transformam horas em anos mas, em um piscar, o lugar comum reconquista aquele espaço vazio. Ecoa memórias que permanecem vivas nas pontas dos dedos…
O corpo se esvai. Desfaz-se em água, em culpa compartilhada…
Debocha do pecado herdado, sorri com o pavor alheio… Aqueles olhos que, de fora, observam assustados mas, por dentro, salivam desejo e choram em um gozo solitário, desejoso de um cúmplice tão intenso como aquele.
E eles, como se invisíveis, alimentam-se um do outro sem saber onde começa o corpo de um e onde termina o do outro. São um. Saciam-se em si mesmos, sorriem de olhos fechados, se beijam de olhos abertos.
Eles são.
Tanto não dizer, tanto não fazer. No sufocamento diário nem escolha se escolhe ter. Cala-se o grito uterino para ouvir o barulho externo. Aborto de qualquer tentativa de libertação. Costura-se um dia no outro com uma agulha invisível que fura a pele flácida. Não sente dor, não sente.
O poeta das ruelas da cidade segue seco, sem sangue, sem gosto. Atirado na calçada não respira, não come, não bebe. Inspira vazio e não expira. Observa vultos de ignorância em um caminho pré-determinado. Zumbi do cotidiano urbano, deus de um apocalipse premeditado, autor e personagem da própria história. Apaga-se nas entrelinhas. Sabe-se morto e contempla a própria mediocridade em silêncio.
Me divirto com o medo disfarçado de desapego. Com o cigarro afogado na lata de cerveja.
Me divirto com o gozo não gozado, com a risada engolida, com a mão não tocada, com o olhar distraído propositalmente.
Diversão é virar pro lado, fingir que não vi, correr pra ansiedade, calar o grito, anular.
Me divirto fingindo concordar, fingindo ouvir, sorrir para a ignorância. Quanta diversão colocar um porém na burrice.
Adoro não andar, não abandonar o insuportável, não, não e não.
Me divirto cortando minhas asas, dizendo sim para o não. Como é bom quando a correia arrebenta na vontade de desistência.
Me delicio com a preguiça do comum, com o clichê da entrega vazia, da satisfação surda, com a fome de segundo, com o nada.
Me divirto com a repetição de todo esse senso comum, em vestir a fantasia, em não ser.
A pressa apressa o passo. Satura vontades, atropela o anseio.
Engole o querer, ilude o corpo com um descontrole desejoso de vício mesmo acreditando que o controle por si só sufoca…
Procura satisfação sem freios… Quer a eternidade no segundo, atrasar o agora e acreditar que era exatamente essa a vírgula de vida que faltava.
O suspiro desenha um rompante de sanidade, de equilíbrio. Sigo os traços, borrando aqui e ali.
Rasura vestida de alternativa, sobrevida na inconstância… A incerteza resgata e significa quem vejo, todos os dias, no espelho.