
Todos os dias, a cena se repete. Chego na redação, copo de café em uma mão, jornal na outra. Mas, nessa rotina, um detalhe mudou. Ao invés de sentar e abrir o jornal, eu sento, ligo o computador e acesso os principais portais de informação. O folhar das páginas foi substituído pelo clique, e o jornal acaba sendo utilizado apenas mais tarde, quando sobra um tempinho para leitura da matéria mais extensa. Ainda assim, quando alguma dúvida paira sobre o texto do impresso, ela é imediatamente sanada e aprofundada pelo clique no hiperlink da página de notícias. Uma mudança que anuncia momento de transformações na forma de produzir, apresentar e consumir a informação. Um período chamado por Nelson Traquina (2001) como “quarto media”, ou, cibermedia.
O ciberespaço representa a transposição de barreiras do acesso à comunicação. Permite a convergência de ferramentas na produção da informação, facilita a decodificação do que é apresentado e democratiza a participação. Transforma um processo, o da informação, concebido, inicialmente, como unilateral em multilateral. O termo “consumidor de informação” é ultrapassado, quando quem consome também tem a oportunidade de produzir. Transformações como essas têm gerado debates importantes quanto aos novos rumos da comunicação, com questões que vão desde a sobrevivência de mercados em um meio cada vez mais democrático, até formas apropriadas e distintas para a apresentação de conteúdo nesse novo ambiente.
Em recente debate, profissionais da comunicação levantam questões como essas em uma apresentação sobre o antagonismo entre “mídia clássica” e meio digital. Para alguns profissionais, a “velha” e a “nova” mídia não são antagônicas. Já para outros, como Caio Túlio Costa, por exemplo, o ciberespaço representa uma mudança profunda na produção de informação, cuja principal transformação é a comunicação “multilateral”. A diferença entre “mídia clássica” e ambiente digital é feita da seguinte maneira: “(a mídia tradicional representa a) informação empacotada e distribuída para canais muito bem definidos – jornais, revistas, TVs e rádio. No ambiente digital, especialmente em razão das redes sociais – com seu fluxo infinito de dados e a interação de todos com todos -, o contexto da comunicação é modificada brutalmente.”
Para Raquel Recuero, as redes sociais representam a ruptura com a mídia clássica, e o surgimento de uma nova forma de produção e disseminação de conteúdos no ciberespaço. Práticas sociais “que constroem sentidos e modificam comportamentos”. Orkut, Facebook, Twitter, blog, fotolog, msn. Afinal de contas, quem não participa de alguma dessas redes ou, ao menos, similar a essas? – Há quem critique tantas ferramentas, dizendo que se tornou escravo do mundo virtual, e passa mais tempo sob a pressão de atualizar esses espaços do que, de fato, produzindo algo. Por outro lado, há quem diga que a utilização não só amplia e facilita a disseminação de informações, como promove a transformação dessas ferramentas, à medida em que o usuário populariza o uso. Para Recuero:
1) os grupos sociais complexificam relações já existentes. As redes sociais são utilizadas para o reencontro de amigos, como forma de manter as relações, mesmo à distância e, assim, também ampliar suas redes de contato;
2) à medida que são popularizados, os espaços são apropriados pelos usuários e transformados. O orkut, por exemplo, deixou de ter importância como fórum, para transformar-se em uma forma de “expressão do eu”. Já o Twitter foi além do “o quê você está fazendo agora”, e transformou-se em um importante espaço de divulgação de informações instantâneas.
Para Raquel, “o sentido é construído na ação das pessoas e em sua interação”.

O ciberespaço vai além das modificações de relação interpessoal. O ambiente virtual se comporta de maneira diferente, logo, precisa de uma linguagem específica, que caracterize o espaço como um novo dispositivo comunicacional, para onde convergem textos, imagens, áudios e vídeos. Quem é oriundo dos Cursos de Comunicação sabe – uma das principais características e demandas do ambiente, “ensinada” logo que o ciberespaço começou a se popularizar, era a produção de textos curtos. Defendiam, muitos de nossos mestres, que “ninguém vai ter paciência para ficar lendo textos longos na tela do computador”. Com a evolução dos estudos sobre a produção de conteúdo para o ambiente virtual, esse pensamento foi mudando, ou melhor, se transformando. O movimento de produção de conteúdo na internet foi descobrindo formas de deixar a cargo do usuário a escolha de aprofundar ou não uma informação. E a principal ferramenta que permite essa escolha é o hiperlink. A possibilidade de, através de um clique em um termo ou frase, construir o conhecimento. Uma construção que, para Andre Abreu, representa um desafio, encontrado na demanda de construção de um conhecimento em “blocos de informação”, para uma sociedade que pensa o conhecimento de forma linear. Afirmação que, segundo Andre, justificaria a não tão frequente utilização da ferramenta hiperlink. Já para o especialista Jakob Nielsen (1997 – já nessa época!), citado por Andre, o uso de textos curtos, porém, com destaques visuais e marcadores “tornam a leitura na internet mais eficaz”, e faz com que o texto tenha mais chances de ser lido. Entre os fatores que defendem a afirmação estão aspectos fisiológicos do comportamento e o interesse na informação.
Nesse sentido, Camila Leporace faz uma reflexão sobre pontos fundamentais na produção de conteúdo online. Segundo ela, antes de tudo, é necessário pensar a informação como um todo, e a que público essa informação se destina. Além do público, Camila chama a atenção para a forma de construção e apresentação do conteúdo que, segundo ela, deve possibilitar o fácil acesso e utilização dos recursos disponibilizados. E para se certificar de que o conteúdo está sendo aproveitado da melhor forma, Leporace destaca a importância de uma análise constante do conteúdo, que avalie a utilização e utilidade do que é apresentado.“Para conseguir destaque na web, é preciso estar atento e saber que quem manda é o internauta”.