Pingo de insanidade Sexta-Feira, Nov 13 2009 

O que nos torna especiais? O que faz prender o olhar de alguém? Talento? Beleza? Tragédia? – Talvez, seja fácil chamar a atenção, difícil é fazer desse momento algo constante.. Despertar uma ponta de sensibilidade por um “algo a mais”, por um encantamento, pela descoberta de algo incrivelmente surpreendente… Um segundo de insanidade que vislumbre esse “algo”, escondido por trás de uma segurança imitada, de uma atitude pretenciosamente natural, mas calculada para conquistar o que é desejado..

Falta de sensibilidade.. Ou excesso dela.. Uma barreira construída pelo impulso, pelo ímpeto. Um esforço para reprimir o que a alma pede – um pouco de tranquilidade. Um olhar capaz de ultrapassar tantas barreiras e enxergar a luz escondida.

Um olhar que acredite que a insanidade é a maior prova da libertação da mente, do corpo, do outro..

A rotina do invisível Quinta-feira, Out 29 2009 

A rodoviária é um ambiente interessante de ser observado. O burburinho, somado ao entra e sai dos ônibus, anuncia um ambiente em constante mudança. Por lá, passam os tipos mais inusitados. Do senhor de chinelos, carregando um saco que usa como bagagem, ao homem de terno e gravata, com seus sapatos devidamente engraxados. A rodoviária, que é apenas um local de passagem para alguns, é moradia e fonte de alimento para outros. Em meio àquela movimentação, o bater de asas de uma pomba desviou a minha atenção para aquele garoto. A altura era de cerca de 1m70cm. Uma toca preta, com listras laranja, escondia parte dos cabelos negros, lisos e despenteados. A pele e o rosto eram as de um índio, com não mais do que 16 anos de idade. O corpo magro, encolhido e sujo vestia trapos cheios de rasgos, e os pés, calçados em havaianas, caminhavam descontraídos.

Como faz todos os dias, apontou o olhar negro para o semblante menos sisudo que por lá estivesse. Com a palma das mãos abertas, uma por cima da outra, anunciou o porquê de sua presença – “Com licença, tem uma moedinha aí pra eu comprar um sanduíche?” – O homem, atirado no banco à espera do ônibus, olhou para o garoto com a mesma rapidez de um piscar de olhos. Com a mão, fez o sinal da indiferença, como se faz para aquele cachorro de rua que chega pedindo carinho. O menino abaixou a cabeça, e seguiu. O homem gritou um deboche. O garoto olhou para traz, pensou em dizer alguma coisa. Não teve coragem. Continuou caminhando. A senhora de cabelos claros e volumosos olhou com desconfiança para aquela figura sofrida. Puxou com dificuldade as moedas do bolso da calça jeans justa que vestia. Antes de entregá-las, perguntou – “Tu vai mesmo comprar comida?” – Ele balançou a cabeça em sinal afirmativo.

Com as moedas na mão, agradeceu e seguiu para a primeira lanchonete que viu. Parou na frente dela. Hesitou, com dúvida se entrava ou não. Olhou para as moedas na palma da mão. Colocou-as no bolso da calça rasgada, olhou para o lado e foi em direção a um casal idoso. Com o mesmo discurso, anunciou a chegada – “Com licença, tem uma moedinha pra eu comprar um sanduíche?” – Sem pronunciar ao menos uma palavra, aquele senhor balançou a cabeça em sinal negativo. O garoto olhou para o lado e seguiu. Passou como que invisível por entre mulheres e homens. Das crianças ele chamou a atenção. Elas apontavam para ele, tentando mostrar para os pais. – “Deixa, filho, não olha.” – Todos os dias, o garoto redesenha o mesmo caminho. O caminho da indiferença. E só desvia o olhar dele para mirar o rosto mais receptivo. Sem mudar uma vírgula do discurso tantas vezes ensaiado, ele repete – “Tem uma moedinha aí?” – Eu não tinha.

 

Domingo, Out 25 2009 

A cortina branca do quarto carrega os detalhes delicados da infância. Como que bordado no tecido, casinhas com uma chaminé que expulsa fumaça, árvores, flores. O tecido flutua no ar com a entrada da brisa suave e levemente fria do mês de outubro. O lilás claro das paredes do quarto reflete a parca luz que entra pela parte da janela que permanece aberta. Os resquícios de um final de dia refletem no piso claro, que imita detalhes da madeira. A pouca iluminação preenche um corpo nostálgico enquanto, lá fora, ecoam as vozes dos que passam pela rua, misturadas a narração do locutor de uma rádio popular. Tudo é tão calmo, tão cheio daquela sensação de eternidade sentida em dias que corriam despreocupados na inocência das descobertas de adolescente. O quarto agora guarda a essência de uma vida inteira.

Da série “Encontros Fortuitos” Domingo, Out 25 2009 

Mais do que o consolo físico de um corpo em outro, certo é que a busca incessante por encontros fortuitos se trata de uma mera fuga da solidão da alma. O fogo da inquietação arde constante e insistentemente, e a solução para tamanha inconstância permanece no vai-e-vem de incansáveis passos. Na entrega, a ilusão de enxergar-se como que de fora do corpo, questionando o próprio espírito pela fuga voluntária enquanto o corpo se esvai em desejos vulgares. Enquanto a mente se afoga em resquícios alcoólicos de mais uma noite vazia. O tudo e o nada. Em um segundo a decisão errada. Impulsividade calculada na medida necessária para uma fuga desesperadamente inútil. Uma conformidade quase mórbida de um sentimento abortado pelo medo. Ainda assim, uma busca esperançosa pelo complemento que soma. Que incendeia e depois acalma. A invasão do corpo e a consequente expulsão da alma que, ainda incandescente por um rastro de pureza, foge para se preservar. Essência que se fecha no recôncavo mais obscuro de si, esperando pelo primeiro sinal.. Do acaso ou do destino.

Encontros… Ou desencontros… Domingo, Out 11 2009 

A solteirisse. Ah, a solteirisse. A liberdade de quem se refugia da solidão em vôos solos pelo instigante e misterioso mundo de um desconhecido. O egoísmo assumido de quem pensa somente em saciar a própria sede, sem a pressão anunciada de um compromisso social. Sentimental. Encontros fortuitos, cheios de uma verdade momentânea. Um desejo sinceramente confessional. O aborto proposital de um sentimento proibido de nascer. Uma vontade de ver a noite terminar em uma manhã ensolarada. Uma despedida preenchida com o vazio de um beijo insignificante. E a vontade de repetir tudo de novo.

Os desafios da produção online Quinta-feira, Set 24 2009 

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Todos os dias, a cena se repete. Chego na redação, copo de café em uma mão, jornal na outra. Mas, nessa rotina, um detalhe mudou. Ao invés de sentar e abrir o jornal, eu sento, ligo o computador e acesso os principais portais de informação. O folhar das páginas foi substituído pelo clique, e o jornal acaba sendo utilizado apenas mais tarde, quando sobra um tempinho para leitura da matéria mais extensa. Ainda assim, quando alguma dúvida paira sobre o texto do impresso, ela é imediatamente sanada e aprofundada pelo clique no hiperlink da página de notícias. Uma mudança que anuncia momento de transformações na forma de produzir, apresentar e consumir a informação. Um período chamado por Nelson Traquina (2001) como “quarto media”, ou, cibermedia.

O ciberespaço representa a transposição de barreiras do acesso à comunicação. Permite a convergência de ferramentas na produção da informação, facilita a decodificação do que é apresentado e democratiza a participação. Transforma um processo, o da informação, concebido, inicialmente, como unilateral em multilateral. O termo “consumidor de informação” é ultrapassado, quando quem consome também tem a oportunidade de produzir. Transformações como essas têm gerado debates importantes quanto aos novos rumos da comunicação, com questões que vão desde a sobrevivência de mercados em um meio cada vez mais democrático, até formas apropriadas e distintas para a apresentação de conteúdo nesse novo ambiente.

Em recente debate, profissionais da comunicação levantam questões como essas em uma apresentação sobre o antagonismo entre “mídia clássica” e meio digital. Para alguns profissionais, a “velha” e a “nova” mídia não são antagônicas. Já para outros, como Caio Túlio Costa, por exemplo, o ciberespaço representa uma mudança profunda na produção de informação, cuja principal transformação é a comunicação “multilateral”. A diferença entre “mídia clássica” e ambiente digital é feita da seguinte maneira: “(a mídia tradicional representa a) informação empacotada e distribuída para canais muito bem definidos – jornais, revistas, TVs e rádio. No ambiente digital, especialmente em razão das redes sociais – com seu fluxo infinito de dados e a interação de todos com todos -, o contexto da comunicação é modificada brutalmente.”

Para Raquel Recuero, as redes sociais representam a ruptura com a mídia clássica, e o surgimento de uma nova forma de produção e disseminação de conteúdos no ciberespaço. Práticas sociais “que constroem sentidos e modificam comportamentos”. Orkut, Facebook, Twitter, blog, fotolog, msn. Afinal de contas, quem não participa de alguma dessas redes ou, ao menos, similar a essas? – Há quem critique tantas ferramentas, dizendo que se tornou escravo do mundo virtual, e passa mais tempo sob a pressão de atualizar esses espaços do que, de fato, produzindo algo. Por outro lado, há quem diga que a utilização não só amplia e facilita a disseminação de informações, como promove a transformação dessas ferramentas, à medida em que o usuário populariza o uso. Para Recuero:

1)      os grupos sociais complexificam relações já existentes. As redes sociais são utilizadas para o reencontro de amigos, como forma de manter as relações, mesmo à distância e, assim, também ampliar suas redes de contato;

2)      à medida que são popularizados, os espaços são apropriados pelos usuários e transformados. O orkut, por exemplo, deixou de ter importância como fórum, para transformar-se em uma forma de “expressão do eu”. Já o Twitter foi além do “o quê você está fazendo agora”, e transformou-se em um importante espaço de divulgação de informações instantâneas.

Para Raquel, “o sentido é construído na ação das pessoas e em sua interação”.

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O ciberespaço vai além das modificações de relação interpessoal. O ambiente virtual se comporta de maneira diferente, logo, precisa de uma linguagem específica, que caracterize o espaço como um novo dispositivo comunicacional, para onde convergem textos, imagens, áudios e vídeos. Quem é oriundo dos Cursos de Comunicação sabe – uma das principais características e demandas do ambiente, “ensinada” logo que o ciberespaço começou a se popularizar, era a produção de textos curtos. Defendiam, muitos de nossos mestres, que “ninguém vai ter paciência para ficar lendo textos longos na tela do computador”. Com a evolução dos estudos sobre a produção de conteúdo para o ambiente virtual, esse pensamento foi mudando, ou melhor, se transformando. O movimento de produção de conteúdo na internet foi descobrindo formas de deixar a cargo do usuário a escolha de aprofundar ou não uma informação. E a principal ferramenta que permite essa escolha é o hiperlink. A possibilidade de, através de um clique em um termo ou frase, construir o conhecimento. Uma construção que, para Andre Abreu, representa um desafio, encontrado na demanda de construção de um conhecimento em “blocos de informação”, para uma sociedade que pensa o conhecimento de forma linear. Afirmação que, segundo Andre, justificaria a não tão frequente utilização da ferramenta hiperlink. Já para o especialista Jakob Nielsen (1997 – já nessa época!), citado por Andre, o uso de textos curtos, porém, com destaques visuais e marcadores “tornam a leitura na internet mais eficaz”, e faz com que o texto tenha mais chances de ser lido. Entre os fatores que defendem a afirmação estão aspectos fisiológicos do comportamento e o interesse na informação.

Nesse sentido, Camila Leporace faz uma reflexão sobre pontos fundamentais na produção de conteúdo online. Segundo ela, antes de tudo, é necessário pensar a informação como um todo, e a que público essa informação se destina. Além do público, Camila chama a atenção para a forma de construção e apresentação do conteúdo que, segundo ela, deve possibilitar o fácil acesso e utilização dos recursos disponibilizados. E para se certificar de que o conteúdo está sendo aproveitado da melhor forma, Leporace destaca a importância de uma análise constante do conteúdo, que avalie a utilização e utilidade do que é apresentado.“Para conseguir destaque na web, é preciso estar atento e saber que quem manda é o internauta”.

Exposição Margs – beleza prejudicada Quinta-feira, Ago 27 2009 

Mais de 100 obras expostas. Renoir, Cézanne, Monet, Van Gohg, alguns dos artistas mais geniais que o mundo já viu. A exposição Arte na França 1860-1960 – O Realismo oportuniza uma experiência inédita no Rio Grande do Sul – estar a poucos centímetros de algumas das obras  que foram e são referência para movimentos e períodos na evolução da arte.

A exposição merece todo o respeito, no entanto, pecou em um detalhe importantíssimo, que prejudicou a apreciação de algumas obras – a iluminação. O local e a forma como as  luzes estavam direcionadas sobre algumas telas fez com que a pintura refletisse a iluminação. O fato obrigou muitos visitantes a descobrirem pontos distantes das salas de exposição para fugir da luz refletida e observar as obras sem interferência.  Segundo a assessora do Margs, o curador não teve muito escolha na disposição das telas, pelo fato de a iluminação ser uma condição do próprio museu.  Um detalhe importante, mas que de maneira nenhuma tirou o brilho do olhar de quem por lá esteve. Inclusive o do meu!

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80 anos da Tia Luíza Quarta-feira, Jul 8 2009 

“Nothing lasts”. Essa foi a mensagem principal que o filme O Incrível Caso de Benjamin Button deixa. Nada dura. Fiquei uma semana com isso na cabeça, matutando o quanto essas duas palavras dizem. E elas dizem muito quanto ao valor que damos a diferentes momentos da vida. No dia 27 de junho a minha tia-avó, conhecida nos recantos de Taquari como Tia Luíza, assim mesmo, com T maiúsculo tamanha a popularidade desta que se transformou na “tia” de muita gente, completou 80 anos. Uma vida marcada por lutas. Tia Luíza lutou pela vida do filho que adotou com todo amor. Lutou anos na justiça pela guarda do neto, maltratado pelo padrasto. Anos de sofrimento, de dor, mas que foram compensados pela conquista da guarda de Samuel, a quem criou com todo o carinho e dedicação.

Assim ficou conhecida Tia Luíza, pelo coração enorme, que sempre abraçou quem precisou de um “cantinho” momentâneo. Logo que chegou o convite para a festa de aniversário, pensei: que lindo! Uma grande festa em comemoração, organizada pelo filho, nora e netos. Uma festa com cerca de 100 convidados, talvez mais. No entanto, tinha decidido que não iria. Afinal, nunca fui muito fã daqueles grandes encontros, com membros da família, do interior do interior, que vi pouquíssimas vezes, ou que nunca vi, e que costumam olhar os “de fora” com ar curioso, não sei se de espanto ou de admiração. Mas, chegou o dia e pensei naquela frase do filme… Poxa, se nada dura mesmo, por que não aproveitar para fazer essa experiência? – Lá fui eu!

Uma festa recheada de surpresas para a aniversariante, com depoimentos e cânticos do grupo da igreja que freqüenta assiduamente. No início, fiquei apreensiva quanto aos cânticos, até um pouco incomodada, confesso. Mas, quando dei por conta da emoção da Tia Luíza me rendi. Um vídeo com fotos da juventude mostrou um cotidiano vivido na roça, com as duas irmãs e o irmão. Também, momentos de alegria com o marido falecido, com os netos… Um recupera dos 80 anos de vida repleto de significados. E, naquele instante, a Tia Luíza respeitosa, misteriosa, bastante séria e com um olhar de tristeza revelou uma pessoa que esbanjava alegria e sorrisos, que não perdia uma festa, que adorava ser fotografada. Olhando o vídeo, logo me veio a frase: “nothing lasts”. Nada dura, e por isso, por medo de ver o presente se esvaindo por entre as mãos, pele, corpo, alguns têm uma necessidade quase que desesperada de não deixar esses momentos de alegria serem esquecidos. Nos olhos de Tia Luíza, as fotos são quase que uma máquina do tempo, através da qual revive momentos especiais. Alegria medida em cada uma das muitas lágrimas que deixou escorrer pelo rosto.

Ao ver Tia Luíza, pensei: “será que eu vou chegar lá?”. Depois, pensei no medo que tenho, não da morte em si, mas de não ter a oportunidade de viver o suficiente para todas as tentativas que quero arriscar. No entanto, o que é que isso importa! A vida é cheia de mistérios, o negócio é viver agora, ser feliz agora, arriscar agora. Afinal, não sei se vou ter o amanhã, então, quero garantir o meu hoje. Sem dúvida, um presente.

A arte do silêncio… Domingo, Jun 7 2009 

Quando a gente se permite ficar em silêncio, parece que o mundo fica mais lento. Claro, quando a gente se permite. Pra quem não acredita em horóscopo, mas encontra verdade naquela descrição que diz que o signo de gêmeos é capaz de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, quase um hiperativo, comunicativo como característica principal, ficar em silêncio é um desafio.

Pra começar, sentar na sacada de casa, em um domingo ensolarado, deixando-se aquecer pelo sol das 14 horas. Fechei os olhos e senti a brisa fria, que me levou alguns fios de cabelo à boca. Mesmo sentindo cócega nos lábios, deixei os fios ali. Logo, deixei minha atenção ser levada pelos sons que pairavam no ar. Latidos de cachorro, a vizinha brigando com o cusco que parecia fazer bagunça, o vento que produzia música nas folhas das árvores… É a verdade do momento, o desapego do passado, a ignorância da angústia do futuro incerto. Perder a vergonha de desnudar a minha experiência e expor todas as sensações que o agora me proporciona. Um exercício que pretendo fazer mais… E recomendo!

Separação Domingo, Mai 31 2009 

A porta se abriu e ele entrou, como uma brisa suave e quente da primavera. Ali ele permaneceu por dias e noites, meses e anos sem se fazer notar, não fosse a morna sensação de um aconchego inexplicável. Até que, em uma manhã fria de inverno, ele abriu a porta e saiu, deixando o vento entrar e gelar todo aquele espaço. Um espaço que agora é preenchido pelo vazio da ausência… Aquela que só é percebida assim, quando o calor da presença, antes não notada, se esvai, ficando somente um gélido silêncio…

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