…dos miseráveis

Tanto não dizer, tanto não fazer. No sufocamento diário nem escolha se escolhe ter. Cala-se o grito uterino para ouvir o barulho externo. Aborto de qualquer tentativa de libertação. Costura-se um dia no outro com uma agulha invisível que fura a pele flácida. Não sente dor, não sente.
O poeta das ruelas da cidade segue seco, sem sangue, sem gosto. Atirado na calçada não respira, não come, não bebe. Inspira vazio e não expira. Observa vultos de ignorância em um caminho pré-determinado. Zumbi do cotidiano urbano, deus de um apocalipse premeditado, autor e personagem da própria história. Apaga-se nas entrelinhas.  Sabe-se morto e contempla a própria mediocridade em silêncio.

Não…

Me divirto com o medo disfarçado de desapego. Com o cigarro afogado na lata de cerveja.

Me divirto com o gozo não gozado, com a risada engolida, com a mão não tocada, com o olhar distraído propositalmente.

Diversão é virar pro lado, fingir que não vi, correr pra ansiedade, calar o grito, anular.

Me divirto fingindo concordar, fingindo ouvir, sorrir para a ignorância. Quanta diversão colocar um porém na burrice.

Adoro não andar, não abandonar o insuportável, não, não e não.

Me divirto cortando minhas asas, dizendo sim para o não. Como é bom quando a correia arrebenta na vontade de desistência.

Me delicio com a preguiça do comum, com o clichê da entrega vazia, da satisfação surda, com a fome de segundo, com o nada.

Me divirto com a repetição de todo esse senso comum, em vestir a fantasia, em não ser.

Da inconstância…

A pressa apressa o passo. Satura vontades, atropela o anseio.

Engole o querer,  ilude o corpo com um descontrole desejoso de vício mesmo acreditando que o controle por si só sufoca…

Procura satisfação sem freios… Quer a eternidade no segundo, atrasar o agora e acreditar que era exatamente essa a vírgula de vida que faltava.

O suspiro desenha um rompante de sanidade, de equilíbrio. Sigo os traços, borrando aqui e ali.

Rasura vestida de alternativa, sobrevida na inconstância… A incerteza resgata e significa quem vejo, todos os dias, no espelho.

Só o que quero saber…

…É quem deu um nó no meu passado… Quem prendeu minha vida à minha racionalidade, à minha expectativa insaciável.

Meu corpo é rachadura, cimento soltando da parede… Asas presas em memórias… De sangue, de pele, de carne.

Tenho sede do vício, daquele, do outro… Machuco, iludo, minto… Pra mim…

Não deixo parar, muito menos entrar… Vinho seco que transforma a tentativa em vinagre… Calo a precipitação…

Teimo em pensar demais… É quando perco a coragem que se alimenta do impulso…

Essa mania de viver do ontem, de querer se alimentar de remendos…

Quero fechar a porta da angústia… Quero minhas asas de volta…

Calar…

A essa altura pouco importa se o coração sangra… Pouco importa o que é dito…  A alma, embalada pelo som, encontra um lugar comum… Encontra o olhar que deseja e se perde em um mundo criado…

Cuspo no orgulho, grito meu desejo…

O coração se engana e chora em silêncio. Canta a dor, sonha o toque, deseja… Vislumbra a essência  imaginada no horizonte, no céu… Quer ouvir, quer brilhar no sentimento alheio, mas nada…

Calar não é compartilhar, é negar… Preferiria ouvir e doer do que calar e iludir…

Do querer…

Não diz o que me conforta a alma. Não faz o que me consola o corpo. São desabafos vazios, do teu ego que grita por socorro. Hoje eu quero paz de espírito, quero ouvir meu coração, quero verdade.  Quero o meu próprio canto, o meu desabafo, a mim.

Hoje quero meu egoísmo abafado pela minha lucidez. Quero doer. Um suspiro após o outro. Quero o latejar do meu pulso no pescoço, a vida que acontece sem querer, o tropeço.

Quero a gargalhada do erro ingênuo, o sorriso da beleza percebida… Quero a vida que me falta de mãos dadas com a coragem que me sobra…

Caminhando…

Caminho na direção oposta do vento… Gosto da visão assim, atrapalhada, confusa, curiosa por ver o que se esconde por trás dos fios de cabelo que me cobrem o rosto. Luz e sombra peleiam pela minha atenção… Sou das duas… Sou as partes… Sou metades completas…

Desfoco do todo, o todo em mim. Sobrevôo a mim mesma, por dentro. Remexo, bagunço, releio. Sinto. Muito…

Reconheço e não entendo. Pergunto pela sombra enquanto essa luz cantarola. Aponta o horizonte, a utopia, a caminhada… Aí me dou conta de que a sombra acompanha o caminho, cada passo ainda não dado… Ela mora na incerteza, sobrevive na inércia e morre no movimento…

Gosto – parte 2

A boca é o universo do corpo. Essa é uma das imagens mais bonitas que criei para mim mesma nos últimos tempos. E a complexidade de significado é tão grande quanto a curiosidade que causa…

A contemporaneidade anda tratando muito mal a capacidade de saborear os alimentos. Tirar o tempo de contemplação do gosto é impedir uma experiência maravilhosa de transcendência física e espiritual. Deixa-se de estimular uma sensibilidade palatar e, consequentemente, de estimular um sentido único e novo. Por mais que seja um alimento já experimentado, a cada nova prova o gosto é carregado de experiências, antigas e recentes. Uma miscelânia de sensações brota de todos os poros do corpo, e o sabor renasce com outro gosto.  Gosto de sensibilidade desperta, de conexão, ou reconexão.

Desfrutar o sabor é ter a oportunidade de entrar em contato com sentimentos. De conhecê-los ou despertá-los. O gosto cria imagens, acorda lembranças. Conecta sensações e, nessa ligação entre gostos e lembranças é possível descobrir por que alguns sabores são apreciados e outros não. O gosto está ligado à experiência e, com isso, a significados e signos. Um determinado alimento, quando consumido em um momento triste ou ruim, transforma-se em uma experiência à memória corporal. Em outro momento, o mesmo alimento, por mais que seja consumido em uma circunstância diferente, pode remeter à sensação de tristeza ou melancolia. Já quando a memória é alegre, a sensação causada pelo alimento corresponde à sensação que causa a lembrança: alegria e, muitas vezes, nostalgia. Os bolos de fubá e cenoura causam exatamente isso em mim!

A industrialização é uma assassina do paladar. Envia mentiras mortais ao cérebro. Diz que a otimização do tempo é sinônimo de dinheiro, e que o dinheiro é a forma mais fácil de chegar à felicidade. Só que a felicidade é só um disfarce, por trás dela está o prazer instantâneo. Uma forma de excitação intensa que, ao chegar no clímax, morre. A experiência acaba no segundo que parece começar.

A comida industrializada perde o status de alimento quando engana o corpo com falsos aromas e sabores. Engana o paladar com bombas de sal e açúcar. Tira a oportunidade da experiência duradoura e contemplativa, da ligação sentimental que une corpo e alma. Transforma a mastigação em um processo puramente mecânico e imperceptível, que busca um tamanho que seja acessível ao diâmetro do esôfago, e com o objetivo final de fazer o estômago inflar e pesar. A saciedade está na sensação de um espaço preenchido.

Tirar a oportunidade da saborear é negar ao corpo e a alma um significado, uma comunicação ancestral.

Gosto

Ouço, sinto, saboreio dentro de mim. Pausa física que faz o tempo ter o gosto daquela cereja roubada do topo do bolo de aniversário.

Paro.

Contemplo o vermelho doce, que justo na intensidade da cor guarda a suavidade do sabor. Mastigo… Gosto que fica no céu da boca.

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Gosto de saudade, de infância… Gosto de febre curada com colo de mãe… De vento gelado no rosto, de bicicleta, de fim de tarde… Das costas geladas sentindo o telhado de casa enquanto o olhar se perde na noite que chega…

Gosto.

Sequência de memórias…

Saudade.

Na segurança do caminho amparado assisti aos muros diminuírem de tamanho ao longo do tempo, mas ainda fico na ponta dos pés para descobrir o mistério que guarda o outro lado. A coragem já não está em ignorar a altura do muro, em escalá-lo para pular… Está em, simplesmente, dar um passo. Querer o que não conheço encarando no olho o medo de gostar. Do mesmo jeito que fazia quando a bola caía no pátio do vizinho. Desafiar a si mesmo. Planejar instantaneamente cada passo. Deliciar-se com sentimentos de insegurança e superação, ambos gritando para se impor sobre o outro. A firmeza ao pegar a bola e saber que o caminho para retornar é o mesmo. Pular o muro de volta. Descobrir que o gosto do medo é bom, e que o de enfrentá-lo é melhor ainda. Agridoce que arrepia… Gosto que vicia.

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O paladar não é apenas um dos cinco sentidos do corpo, mas o sentido que guarda todos os outros. Um amontoado de memórias experimentadas, um soberano no reino das sensações. Ao sentir o gosto vejo com a lembrança, sinto a textura e até mesmo o cheiro…  Meu corpo ainda se faz ouvir com um “ahhhh” do alívio da sede no verão, acompanhado do gosto do suco gelado de abacaxi com hortelã. Tudo ali, no paladar.

A boca é o universo que cabe no corpo…

Agora…

Agora…

Desconstrução contínua de movimento…

Efemeridade involuntária…

Enlace e desenlace…

Quebra-cabeça eterno de vontades momentâneas…

Desejo intuitivo que é censurado pelo vício de manter um dos pés no passado e o outro no futuro. Ansiedade que vive no movimento… Quer o depois ao mesmo tempo em que deseja a repetição do antes.

Agora se perde de novo, e de novo, e de novo… Chance constante de não pensar… Chance de apenas perceber.

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