Tanto não dizer, tanto não fazer. No sufocamento diário nem escolha se escolhe ter. Cala-se o grito uterino para ouvir o barulho externo. Aborto de qualquer tentativa de libertação. Costura-se um dia no outro com uma agulha invisível que fura a pele flácida. Não sente dor, não sente.
O poeta das ruelas da cidade segue seco, sem sangue, sem gosto. Atirado na calçada não respira, não come, não bebe. Inspira vazio e não expira. Observa vultos de ignorância em um caminho pré-determinado. Zumbi do cotidiano urbano, deus de um apocalipse premeditado, autor e personagem da própria história. Apaga-se nas entrelinhas.  Sabe-se morto e contempla a própria mediocridade em silêncio.