Ouço, sinto, saboreio dentro de mim. Pausa física que faz o tempo ter o gosto daquela cereja roubada do topo do bolo de aniversário.

Paro.

Contemplo o vermelho doce, que justo na intensidade da cor guarda a suavidade do sabor. Mastigo… Gosto que fica no céu da boca.

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Gosto de saudade, de infância… Gosto de febre curada com colo de mãe… De vento gelado no rosto, de bicicleta, de fim de tarde… Das costas geladas sentindo o telhado de casa enquanto o olhar se perde na noite que chega…

Gosto.

Sequência de memórias…

Saudade.

Na segurança do caminho amparado assisti aos muros diminuírem de tamanho ao longo do tempo, mas ainda fico na ponta dos pés para descobrir o mistério que guarda o outro lado. A coragem já não está em ignorar a altura do muro, em escalá-lo para pular… Está em, simplesmente, dar um passo. Querer o que não conheço encarando no olho o medo de gostar. Do mesmo jeito que fazia quando a bola caía no pátio do vizinho. Desafiar a si mesmo. Planejar instantaneamente cada passo. Deliciar-se com sentimentos de insegurança e superação, ambos gritando para se impor sobre o outro. A firmeza ao pegar a bola e saber que o caminho para retornar é o mesmo. Pular o muro de volta. Descobrir que o gosto do medo é bom, e que o de enfrentá-lo é melhor ainda. Agridoce que arrepia… Gosto que vicia.

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O paladar não é apenas um dos cinco sentidos do corpo, mas o sentido que guarda todos os outros. Um amontoado de memórias experimentadas, um soberano no reino das sensações. Ao sentir o gosto vejo com a lembrança, sinto a textura e até mesmo o cheiro…  Meu corpo ainda se faz ouvir com um “ahhhh” do alívio da sede no verão, acompanhado do gosto do suco gelado de abacaxi com hortelã. Tudo ali, no paladar.

A boca é o universo que cabe no corpo…