A boca é o universo do corpo. Essa é uma das imagens mais bonitas que criei para mim mesma nos últimos tempos. E a complexidade de significado é tão grande quanto a curiosidade que causa…
A contemporaneidade anda tratando muito mal a capacidade de saborear os alimentos. Tirar o tempo de contemplação do gosto é impedir uma experiência maravilhosa de transcendência física e espiritual. Deixa-se de estimular uma sensibilidade palatar e, consequentemente, de estimular um sentido único e novo. Por mais que seja um alimento já experimentado, a cada nova prova o gosto é carregado de experiências, antigas e recentes. Uma miscelânia de sensações brota de todos os poros do corpo, e o sabor renasce com outro gosto. Gosto de sensibilidade desperta, de conexão, ou reconexão.
Desfrutar o sabor é ter a oportunidade de entrar em contato com sentimentos. De conhecê-los ou despertá-los. O gosto cria imagens, acorda lembranças. Conecta sensações e, nessa ligação entre gostos e lembranças é possível descobrir por que alguns sabores são apreciados e outros não. O gosto está ligado à experiência e, com isso, a significados e signos. Um determinado alimento, quando consumido em um momento triste ou ruim, transforma-se em uma experiência à memória corporal. Em outro momento, o mesmo alimento, por mais que seja consumido em uma circunstância diferente, pode remeter à sensação de tristeza ou melancolia. Já quando a memória é alegre, a sensação causada pelo alimento corresponde à sensação que causa a lembrança: alegria e, muitas vezes, nostalgia. Os bolos de fubá e cenoura causam exatamente isso em mim!
A industrialização é uma assassina do paladar. Envia mentiras mortais ao cérebro. Diz que a otimização do tempo é sinônimo de dinheiro, e que o
dinheiro é a forma mais fácil de chegar à felicidade. Só que a felicidade é só um disfarce, por trás dela está o prazer instantâneo. Uma forma de excitação intensa que, ao chegar no clímax, morre. A experiência acaba no segundo que parece começar.
A comida industrializada perde o status de alimento quando engana o corpo com falsos aromas e sabores. Engana o paladar com bombas de sal e açúcar. Tira a oportunidade da experiência duradoura e contemplativa, da ligação sentimental que une corpo e alma. Transforma a mastigação em um processo puramente mecânico e imperceptível, que busca um tamanho que seja acessível ao diâmetro do esôfago, e com o objetivo final de fazer o estômago inflar e pesar. A saciedade está na sensação de um espaço preenchido.
Tirar a oportunidade da saborear é negar ao corpo e a alma um significado, uma comunicação ancestral.



