Separação Domingo, Mai 31 2009 

A porta se abriu e ele entrou, como uma brisa suave e quente da primavera. Ali ele permaneceu por dias e noites, meses e anos sem se fazer notar, não fosse a morna sensação de um aconchego inexplicável. Até que, em uma manhã fria de inverno, ele abriu a porta e saiu, deixando o vento entrar e gelar todo aquele espaço. Um espaço que agora é preenchido pelo vazio da ausência… Aquela que só é percebida assim, quando o calor da presença, antes não notada, se esvai, ficando somente um gélido silêncio…

Banalidades… Sábado, Mai 16 2009 

Escrever sobre o cotidiano é tão banal, mas afinal, o que não é banal? Aquela pessoa que se enfia na nossa frente em uma fila; aquele gurizão que, mesmo vendo uma senhora de pé no ônibus faz questão de ignorar e continuar ouvindo a música no volume mais alto do mp3; o cara que se atravessa na frente com o carro e ainda faz aquele sinal com o dedo médio… Ignorância, estupidez, o humano. Critica-se tanto aquele político corrupto, sem perceber que ele é o reflexo da própria sociedade. A desfaçatez, a mentira, o roubo…

“Tô me lixando pra opinião pública”! Essa é a frase do momento, proferida escandalosamente por um político que se referia à imprensa, esquecendo que a opinião pública vai além da imprensa, é a própria sociedade! Portanto, ele está “se lixando” para a sociedade, que foi quem o escolheu para representá-la! E que continua elegendo pessoas que se lixam pra ela, que roubam dela, que riem dela, que usam o dinheiro dela pra pagar os estudos dos filhos na Europa, a viagem de férias para as Bahamas…

A vida é bela, mas onde está essa beleza? Nos pássaros, na natureza, no olhar inocente da criança… Mas isso tudo desaparece na criança explorada pedindo dinheiro, na senhora idosa pedindo moedas, na índia amamentando o filho imundo no colo, sentada na porta de um edifício no centro da cidade, enquanto milhares de pessoas passam fingindo não perceber; no idoso sentado na porta de um asilo, com as pernas cruzadas, os braços apoiados nas pernas, o olhar distante, esquecido, esperando, esperando… Pessoas passam por cima das outras para não perder o horário, para chegar em casa mais cedo, para chegar primeiro. A ignorância predomina, e a gente finge que isso tudo é normal, porque é difícil olhar para o espelho e saber que é preciso mudar. Mudar dá trabalho, é doloroso…

Onde está a poesia, o sentimento, a compaixão, o respeito? Dizem que ser “bonzinho”, vulgo honesto, é ser burro. Pois então a burrice está praticamente extinta! É um ciclo vicioso, uma repetição, um mundo mecânico. Tem gente que diz ser frescura falar em sensações, no que transcende essa realidade grotesca… Tem gente que diz ser frescura olhar no olho quando falando com alguém, que não gosta quando alguém a toca em meio a uma conversa… O individualismo, o retrocesso, o medo, o uno… Dá medo pensar onde tudo isso vai parar.

E o cotidiano… Domingo, Mai 3 2009 

Ser sincero dói. Dói porque, muitas vezes, significa dizer o que alguém não quer ou não está disposto a ouvir. Em um país de hipócritas, a sinceridade é jóia rara, afiada, pronta pra rasgar o que já não funciona mais, o que um dia significou… E quero mais é que rasgue mesmo, com toda a verdade que isso carregue.

A sinceridade dói no corpo, dor física mesmo. Dói na alma, no coração…

Acredito que a sinceridade basta no olhar. Às vezes, não é preciso palavras, basta o tal olhar… Pra acabar com o que um grande poeta diz com a sabedoria de quem vive a vida com verdade e com intensidade:

- “Pra acabar com essa eterna falta do que falar…”

Comum é dizer:

- “Aquele político desonesto”! – Quando a desonestidade parte de nós mesmos… Hipócritas, hipócritas, hipócritas! Todos nós…