Erradicação da fome – Utopia, utopia… Quarta-feira, Abr 15 2009 

fome-africaUm dólar por dia. Este é o valor com o qual 19% da população mundial sobrevive. Isso significa que cerca de 1 bilhão de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, segundo relatório da Organização das Nações Unidas. Até 2007, 925 milhões de pessoas passavam fome. Principal causa: a alta do preço dos alimentos. Uma, das três crises citadas pelo secretário-geral da Onu, Ban Ki-moon. As outras duas seriam a crise do clima e a do desenvolvimento.

Quando se fala em miséria e fome, leia-se total falta de dignidade. É muito fácil se encher de indignação ao passar a pé, de carro ou de ônibus por barracos levantados com madeira podre. Caminhar na rua e virar a cara para quem dorme na rua, no chão, alimentando o corpo com drogas para conseguir levar mais um dia. Grande parte de nós prefere não olhar. Eu prefiro não olhar. Egoísmo, fraqueza, falta de ação? – Sim, mas este não é um problema que apenas Ongs, movimentos sociais ou seja lá que tipo de organização não-governamental possa resolver. Essa é uma realidade para a qual o poder público precisa voltar os olhos. Discursinho ultrapassado esse, não é? No entanto, uma verdade absoluta, coisa que todos sabem. Mas, se todos sabem, por que é que passam-se os anos, a realidade até ficando menos nebulosa, mas ainda mostrando pessoas em condições subumanas? No Brasil, tem gente que diz que a situação é fruto da corrupção desse país. Pode ser, mas se ao menos destinassem parte da roubalheira, do dinheiro das 50 e tantas secretarias que restaram no governo federal e que não servem pra nada, para investimentos em educação, em geração de emprego e, consequentemente, renda, o roubo descarado até passaria de uma forma menos escandaloza…

Um dado interessante do Ipea, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, diz que a eliminação da Cofins, aquela cobrança do governo federal para o financiamento da seguridade social, faria com que 6,4 milhões de brasileiros saíssem da linha da pobreza. Explico. Segundo o Ipea, 32,5% dos brasileiros vivem com cerca de meio salário mínimo per capita, o que significa renda familiar de pouco mais de R$200,00. Com a eliminação da Cofins, os tributos indiretos, embutidos nos bens de consumo, como é o caso do ICMS, imposto sobre mercadorias e serviços, seriam transferidos para o imposto de renda. Ou seja, o preço do alimento, assim como o de todos os outros tipos de produtos, seria razoavelmente menor. O poder de compra de boa parte dos brasileiros se elevaria e, com isso, muitos ultrapassariam a condição de pobreza. Pretensão bonita, mas irrealizável em um país onde aumentam os impostos na mesma proporção em que diminui a qualidade do serviço público…crianca-faminta

Uma, das oito metas da Onu até 2015 é a erradicação da pobreza… Alguém acredita nisso? - Eu não. Pessimismo? Alguns podem dizer – Não, realista! - Eu digo tanto faz. Alguém vê beleza nessa utopia? Os olhos desta criança me dizem que não…

Rotina… Segunda-feira, Abr 13 2009 

6 horas da manhã. Um barulho de portão fechando, passarinhos cantando, despertador do celular tocando. Levanto meio tonta, quarto ainda escuro. Banho rápido, creme no cabelo, e cafezinho pra acordar mesmo. Pego o carro, com pressa. As ruas não muito movimentadas… Aproveito a calmaria e acelero no amarelo da sinaleira. Chego no meu trabalho, portas fechadas… Penso:

- Bah, corri mesmo, ninguém chegou…

De repente, meu celular toca. Minha mãe. Ela pergunta:

- Filha, onde tu tá?

Respondo, meio sem paciência:

- Poh, mãe, como assim, to no trabalho!

E ela, com uma risadinha, me diz :

- Mas filha, hoje é domingo!
Rotina… O tempo que esquecemos para o nosso próprio descanso. Que dirá pra perceber quem ou o quê está ao nosso redor…

6

O dia em que conheci dona Lila Sexta-Feira, Abr 10 2009 

Manhã ensolarada de segunda-feira. Pra variar, o ânimo não era dos melhores, afinal, segunda-feira… A pauta era mostrar como funciona o setor de oncologia do Hospital Centenário, em São Leolpoldo. O setor existe desde 2001, oferecendo tratamento de radiologia e quimioterapia para pacientes com câncer. Equipamentos modernos… Quem visita, normalmente, impressiona-se pela tecnologia oferecida. Eu me impressionei com a frieza calculada daquele equipamento, tão necessário pra quem precisa tratar a doença. Da sala de radiologia, passei para a de quimioterapia. Ali, um choque fez com que sentisse minhas pernas estremecerem. Poltronas pretas colocadas em uma espécie de círculo, onde cada um dos pacientes, sentados, podem enxergar um ao outro. No centro, um balcão onde ficam as enfermeiras. Naquela manhã, cerca de oito pessoas faziam o tratamento e, entre elas, dona Lila. Acredito que, de todos, dona Lila era a paciente de mais idade. 69 anos. Sentada em uma das poltronas, recebia a mistura de quimioterápicos por meio de uma sonda, colocada no braço esquerdo. Cabelos, assim como sombrancelhas, ela já não tem. Dona Lila mantinha os olhos fechados quando cheguei e, assim que notou minha presença, sorriu. Levemente acariciaou a cabeça nua e, em seguida, cruzou as mãos logo acima das pernas. A voz era doce e pausada, como se lhe faltasse ar.

- “Posso conversar com a senhora?”, perguntei.

- “Pode sim”, disse ela com um sorriso no olhar.

Sentadas, uma de frente para a outra, ela me contou a sua história. Em 1991, o seio esquerdo foi retirado. Uma realidade aterradora, que mutila muitas mulheres. Dados do INCA, o Instituto Nacional do Câncer, dão conta de que o câncer de mama é o que mais mata no Brasil. 51 casos a cada 100 mil mulheres, o que representa 49.400 ocorrências da doença só no ano de 2008. A região Sul do Brasil é a que registra maior número de vítimas da doença. Há 18 anos, dona Lila faz parte dessa estatística estarrecedora, de casos que se multiplicam por uma série de fatores, como genética, má alimentação, falta de exercícios físicos. Motivos conhecidos, que influenciam no desenvolvimento de uma doença cuja prevenção continua sendo o auto-exame. Tocar-se, conhecer-se, fazer o exame da mama anualmente ainda é a melhor forma de evitar o câncer. Após a retirada da mama esquerda, dona Lila se recuperou. Começou a se sentir melhor ao longo do tempo e, assim, os anos se passaram. Com o bem-estar, deixou de fazer o exame semestral, para controlar o possível reaparecimento da doença.

- “Eu tava me sentindo bem. Aí, não fui mais. Quando foi de repente, saiu um caroço na mama direita. Era o câncer.”

A doença foi detectada novamente no ano passado e, desde então, dona Lila faz tratamentos penosos de quimioterapia a cada 20 dias. As seções têm duração de cerca de 40 minutos. Tempo suficiente para causar uma fraqueza incrível, e um mal estar que demora a passar. Dona Lila não tem convênio, e tão pouco dinheiro para pagar tratamento particular. Tudo é feito pelo SUS. No ano passado, o médico indicou a cirurgia para a retirada do tumor da mama direita. Lá foi dona Lila para a fila de quem busca o procedimento. Assim como ela, tantas outras mulheres na mesma situação. Tantas, que dona Lila não conseguiu vaga para realizar a cirurgia. O câncer desenvolveu para um estágio mais avançado e as seções de quimioterapia, agora, não têm previsão para terminar. Enquanto isso, ela espera, mas uma espera sem medo, uma espera que emociona pela força de vontade de quem luta há 18 anos contra a doença.

- “De onde a senhora tira tanta força, quando o tratamento é tão doloroso?” – Perguntei. Ela, desta vez sem o sorriso no olhar, respondeu:

- “Nem eu sei, só sei que eu tenho esperança, e vontade de viver”.

Agradeci o depoimento sincero de dona Lila, e saí da sala. O coração apertado, perguntando por que era mesmo que eu estava desanimada naquela manhã de segunda-feira… Até agora não descobri.

Pra começar… Quarta-feira, Abr 8 2009 

A vida é uma viagem. Às vezes, falta paciência pra olhar o que se passa ao redor ou o próprio caminho que se faz. Meu humilde objetivo com este blog é a publicação de percepções cotidianas com poesia, realidade, desabafo… Tá afim de embarcar? Então abstrai o que há de comum, o que tem medo de mudança e viaja comigo.